Rashford e Adele: os dois lados de celebridades engajadas em causas sociais

Rashford e Adele: os dois lados de celebridades engajadas em causas sociais

Marcus Rashford

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Nem sempre os jogadores de futebol ganham visibilidade fora das páginas esportivas por razões nobres. No Reino Unido, um jovem atleta de 22 anos, Marcus Rashford, está dando um exemplo contrário ao de muitos de seus colegas pelo mundo, que pode inspirar outros jogadores a usarem sua popularidade para ajudar a transformar a sociedade.

Menino de origem humilde, o atacante do Manchester United e jogador da seleção inglesa adotou a causa da fome infantil no país − sim, ela existe. Amparado pela legitimidade, pois sofreu na pele as dificuldades de se alimentar bem na infância, virou um exemplo de mobilização social que entrou no radar da política e de grandes corporações.

O ativismo consistente e percebido como responsável de Rashford levou ao engajamento de algumas das principais empresas alimentícias do país em uma ação social anunciada nessa terça-feira (1º/9), com um objetivo ambicioso: acabar com a fome entre crianças no país. Aldi, Co-op, Deliveroo, Iceland, Kellogg’s, Sainsbury’s, Tesco e Waitrose são as marcas que viram valor na causa defendida pelo atleta e não tiveram receios em se associar a ele.

O esforço chama-se Child Food Poverty Task Force. Nas próximas seis semanas, os integrantes abrirão espaço em suas plataformas para compartilhar histórias sobre crianças afetadas pela insegurança alimentar no país. Rashford escreveu uma carta aberta aos parlamentares e ao Governo cobrando ação e fundos no orçamento público para suprir as necessidades alimentares dos menos favorecidos.

“Eu sei o que é isso. Lembro até hoje da minha mãe chorando até dormir, depois de trabalhar 14 horas, por não saber se ia conseguir sobreviver. Esta era a minha realidade.”

Marcus Rashford

A adesão das marcas não veio à toa. No auge da pandemia, o jogador já havia conseguido reverter a decisão do Governo de interromper a distribuição de um cupom para compra de alimentos às crianças que estavam privadas da alimentação por causa da interrupção das aulas. Fez o primeiro-ministro Boris Johnson abrir os cofres e liberar £120 milhões para o Covid summer food fund.

O capital de imagem conquistado por Rashford é imenso. Ele tem agora mais de 3 milhões de seguidores no Twitter. Pela ação anunciada com as empresas de alimentação, recebeu elogios e foi retuitado por celebridades como o ex-jogador e atual comentarista esportivo da BBC Gary Lineker.

Se conseguir levar adiante seu projeto e permanecer em uma trajetória consistente, sem deslizes que ponham a perder o que conquistou até aqui, pode se converter em um case memorável de ativismo social. E um modelo de campanha de relações públicas bem-sucedida, que incorpora elementos básicos e indispensáveis em qualquer ação que envolva o público: seriedade de propósitos e legitimidade para defendê-los.

Adele, o outro lado da moeda − Ser celebridade e defender causas, no entanto, tem lá os seus riscos. O episódio ocorrido com a cantora Adele é um alerta. Também esta semana, a cantora britânica virou alvo de controvérsia no Reino Unido por ter postado fotos alusivas ao carnaval de Notting Hill, uma celebração à diversidade racial e à cultura caribenha.

Adele

Loira, ela posou trajando um biquíni com as cores da bandeira da Jamaica e penteado afro. A intenção foi boa, mas a percepção não. Houve um levante nas redes sociais contra a apropriação cultural de elementos associados à cultura negra por uma pessoa branca. Representantes da comunidade negra vieram em sua defesa, mas a polêmica já estava criada.

A situação vivida por Adele é a prova de que não basta ter boa vontade. Medir bem os riscos, sobretudo em atos que envolvam questões relacionadas a minorias das quais não se faz parte, é cada vez mais necessário para evitar desastres de imagem.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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