Pesquisa da USP expõe problemas no trabalho de comunicadores na pandemia

Pesquisa da USP expõe problemas no trabalho de comunicadores na pandemia

Roseli Figaro

Por Jamir Kinoshita, especial para o J&Cia

Criado em 2003, o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (CPCT/ECA-USP) já realizou estudos sobre o mundo do trabalho dos jornalistas. Além de concluir a segunda fase da investigação sobre as condições de produção da mídia alternativa, o grupo se debruça na análise final da investigação Como trabalham os comunicadores na pandemia da Covid-19? Credenciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o CPCT é coordenado pela jornalista e professora Roseli Figaro, que também está à frente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da ECA-USP. Diretora de Relações Internacionais da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), ela antecipa, com exclusividade ao J&Cia, alguns dos resultados dessa última pesquisa, entre eles o aumento da carga de trabalho e o medo do contágio, evidenciando ainda mais a precarização crescente da atividade.

Jornalistas&Cia – Como surgiu a ideia dessa pesquisa com comunicadores?

Roseli Figaro – Tínhamos alguns relatos, principalmente de jornalistas que estavam na cobertura da pandemia, de que o ritmo de trabalho havia se alterado bastante. Decidimos, então, verificar a influência da Covid-19 no trabalho dos comunicadores em geral, buscando ver as principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais nesse período.

J&Cia – De que maneira vocês realizaram o estudo?

Roseli – Elaboramos um formulário online, que encaminhamos às mídias tradicional e alternativa, associações, sindicatos, órgãos públicos, agências de comunicação e publicidade e profissionais da área. Várias entidades, como Abraji, Fenaj, Abracom, ABI, Conrerp 2ª Região e o próprio J&Cia, ajudaram na divulgação. O questionário ficou disponível para preenchimento entre 5 e 30 de abril. Tivemos mais de 550 respostas do País todo, incluindo uma de Portugal. Começamos a pesquisa passados 11 dias do primeiro período de distanciamento social decretado no Estado de São Paulo. Na ocasião, havia 11.281 casos confirmados e 487 mortes no Brasil. No quinto dia do estudo, o número já havia subido para 18.176 casos e 957 óbitos.

J&Cia – Que resultados vocês obtiveram?

Roseli – Estamos em fase final de análise, mas já é muito evidente o aumento da jornada e do volume de trabalho, que tornou bem mais estressante a rotina por ter de conciliá-la com os cuidados com a casa e os filhos. A isso se soma a sensação de cansaço sentida diariamente por esses trabalhadores, que ainda têm de usar, na maioria das vezes, seus próprios instrumentos para trabalhar, como computador, celular e conexão à internet. Um dado concreto é que 70% dos profissionais reclamaram que o ritmo de trabalho está bem mais intenso, tanto no sistema home office quanto para quem se manteve em atividade externa. Além disso, as rotinas de produção sofreram muito com o distanciamento social, pois o contato com as fontes de informação, empresas e clientes está limitado, o que exige mais atenção e rigor na organização do trabalho.

J&Cia – Os profissionais apontaram algum temor relacionado às suas atividades?

Roseli – Sim. Sem sombra de dúvida, o grande medo é ser contagiado e ficar desempregado. Convém destacar que as condições emocionais dos comunicadores estão bastante abaladas. As palavras morte, contágio e colapso do sistema de saúde são as mais usadas pelos respondentes para relatar com estão se sentindo frente à Covid-19.

J&Cia – O que o CPCT pretende fazer assim que finalizar a análise?

Roseli – Vamos publicar os resultados obtidos em nosso site e também produzir um e-book. A ideia é divulgar a pesquisa em congressos científicos e participar, como inclusive já temos feito, de debates com sindicatos e entidades científicas e de classe. Como as respostas são muito significativas, especialmente os relatos dos profissionais, temos um material riquíssimo que nos permite pensar em outras análises. Mas, para além disso, esperamos que o estudo possa colaborar, de alguma forma, em pensar alternativas que assegurem condições minimamente seguras tanto em relação à saúde dos profissionais quanto ao futuro da profissão a partir dos desdobramentos da Covid-19. Afinal, o fato é que a pandemia expôs ainda mais a situação de precarização que já estava presente no cotidiano dos comunicadores, em especial os jornalistas, que não têm garantia alguma de benefícios, atuando como freelances, autônomos ou mesmo por trabalho vinculado à duração de projetos específicos.


Jamir Kinoshita

Jamir Kinoshita ([email protected]) é doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e consultor independente de comunicação



Fonte: Portal dos Jornalistas

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