O adeus a Randau Marques, percussor do jornalismo ambiental brasileiro

O adeus a Randau Marques, percussor do jornalismo ambiental brasileiro

Randau Marques. Foto: Museu da Pessoa

Morreu em São Paulo em 9/4, aos 70 anos, vítima de um infarto fulminante, Randau de Azevedo Marques, considerado o primeiro jornalista brasileiro especializado na cobertura do meio ambiente, responsável por trazer à tona grandes temas da área, como o desmatamento da Amazônia. Nascido em Icaçaba, subdistrito de Pedregulho, na divisa com Minas Gerais, em um antigo aldeamento indígena que virou cemitério, Randau trabalhou na redação do Jornal da Tarde por mais de 21 anos. Devido à Covid-19, o corpo foi cremado sem velório. Deixou mulher e três filhos.

Em Jornal da Tarde: uma ousadia que reinventou
a imprensa brasileira
, Ferdinando
Casagrande
conta que Randau ele cresceu entre lavouras infestadas por
pesticidas que matavam lavradores e a fauna, garimpeiros intoxicados por
mercúrio e sapateiros contaminados pelo chumbo das tachinhas usadas na
indústria calçadista de Franca: “Em 1963, todas essas angústias levaram o
menino de 14 anos a rodar em mimeógrafo seu primeiro jornal de denúncias,
chamado Boca no Trombone”. Em Franca, para onde se mudara com a família, foi
repórter de rádio e dos jornais A Tribuna e Comércio da Franca.

Anthony de Christo,
que o conheceu no JT, informa que, em 1967, com 17 anos, Randau “foi preso pela
ditadura, torturado e nas sessões de eletrochoque adquiriu sequelas para o
resto da vida, como epilepsia e outros problemas neurológicos graves”. O motivo
foi uma reportagem em que denunciava justamente a contaminação dos sapateiros
por chumbo.

Quando deixou a prisão, no DOI-Codi, na capital paulista,
procurou o JT, que acompanhava desde o lançamento, um ano antes. Começou como freelance e foi contratado em 1968.
Passou também pelo Estadão e pela Agência Estado.

Embora tenha atuado em diversas áreas, especializou-se na
cobertura do meio ambiente, Entre as grandes reportagens que marcaram sua
carreira, estão a do deslizamento da Serra do Mar que quase soterrou
Caraguatatuba, em 1967; as que impediram a construção de um aeroporto em
Caucaia do Alto, na região metropolitana de São Paulo, e de usinas nucleares em
Iguape, no litoral Sul do Estado; e as que conseguiram evitar a continuidade da
poluição na região de indústrias em Cubatão (Baixada Santista). Sobre estas
últimas, Rodrigo Lara Mesquita, ex-diretor
da Agência Estado e do JT, diz que “foi ele que levantou toda a tragédia
de Cubatão. Tem fotos da Serra do Mar que estava desmoronando. Ele acabou nesse
processo de cobertura e cunhou o termo ‘Vale da Morte’, algo muito forte”.

Ainda na área ambiental, Randau participou da fundação da
ONG Oikos, em plena ditadura militar, da Fundação SOS Mata Atlântica (da qual
Rodrigo Mesquita foi o primeiro presidente), da Comissão de Problemas
Ambientais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da
Associação Brasileira de Jornalismo Científico. “Ele fez com que o Jornal da
Tarde acabasse indiretamente sendo um dos fatores de articulação do movimento
ambientalista em São Paulo”, lembra Mesquita

Christo diz que assim ele justificava seu foco no meio
ambiente: ”A minha vida inteira foi dedicada a essa questão. Não tenho outra
lembrança senão a de muito trabalho, muita briga, muita luta”.

Sérgio Vaz, que
começou no JT na mesma época em que Randau (como conta em seu blog),
afirma que muito antes da internet ele tinha um Google particular: “Ficava
embaixo da mesa dele no JT; depois foi crescendo, crescendo, crescendo – passou
a ocupar o chão de umas três ou quatro mesas. Eram caixas e mais caixas e mais
caixas de papéis. Textos datilografados, xerox de matérias, de documentos,
fotos, documentos originais. Ivan Ângelo,
o grande escritor mineiro, durante anos e anos secretário de Redação do JT,
volta e meia ameaçava mandar a segurança jogar tudo aquilo fora. Argumentava
que documento tinha que ser guardado no Arquivo (o Arquivo da S.A. O Estado de
S. Paulo era uma coisa extraordinária, maravilhosa, competente,
organizadíssima). Randau não dava a menor bola. Sabia que ninguém teria coragem
de fazer aquilo. E o fantástico era que o Google dele funcionava. Se surgisse com
uma pauta pedindo um levantamento de tal e tal dado, Randau punha-se de joelhos,
fuçava durante uns poucos minutos naquela zorra e saía de lá com um sorriso no
rosto e os dados pedidos na mão. Que figura! Não era à toa que os
ambientalistas todos daqueles anos 1970 e 80, quando o ambientalismo ainda dava
seus primeiros passos no País, o respeitavam”.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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