Em tempos de pandemia, em quem confiar?

Em tempos de pandemia, em quem confiar?

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A empresa de pesquisas britânica GlobalWebIndex tenta responder a essa difícil pergunta por meio de um estudo regular que começou com 13 países, incluindo o Brasil, e foi estendido para 17 países.

A segunda etapa do trabalho, que mapeia sentimentos e atitudes da
população em relação à Covid-19, foi publicada esta semana cobrindo o período
de 31 de março a 2 de abril. Traz elementos importantes sobre a confiança do
público nas instituições e nas informações que recebe. Os dados comparativos
envolvem apenas as 13 nações pesquisadas na fase inicial.

No Brasil, 70% dos entrevistados aprovam a atuação das corporações
diante da crise, percentual 6% mais alto do que na primeira etapa. O país ocupa
o quinto lugar nesse quesito, atrás do Canadá (89%), Itália e Filipinas (com
79%), e perto da África do Sul, onde as empresas receberam 71% de aprovação.

Quanto ao Governo as coisas complicam. Estamos em nono, empatados com
os Estados Unidos (50%), e em queda em relação à fase anterior. O cenário é
pior na França, em Singapura e no Japão, onde somente 15% da população se disse
favorável ao desempenho da administração pública. Já os canadenses, além de
aprovarem o setor privado, aparecem como o povo mais feliz com o trabalho do
Governo.

Informação: acesso x confiança − As formas de consumir notícias também são alvo do estudo, que indica
contradição entre acesso e credibilidade. Globalmente o universo pesquisado
declarou informar-se mais sobre o coronavírus por canais de notícias na TV
(60%), websites (55%), newsletters (45%), informes do Governo (50%) e
mídias sociais (47%). Os respondentes podiam votar em mais de uma opção.

Quando a questão é confiança o quadro muda. As mídias sociais despencam
para 14% − maior gap entre uso e credibilidade − e o jornalismo também
cai, enquanto informes do Governo lideram, com os mesmos 50% dos que os
apontaram como fonte de informação.

No Brasil, os sites, canais de notícias e noticiário regular da TV
aparecem como principais locais onde o público se informa sobre a pandemia
(55%, 53% e 43%, respectivamente). O Governo ocupa um honroso quarto lugar, com
41%. Interessante observar que o trabalho de campo foi feito enquanto o então
ministro da Saúde dava coletivas diárias.

Curiosamente, para um país tão conectado, redes sociais aparecem em
quinto lugar, com 40%. E nosso popular WhatsApp foi apontado por somente 22% do
público como fonte de notícias, perdendo para organizações de saúde pública
(33%) e jornais (25%).

Mas em credibilidade, quem brilha no Brasil são as organizações de
saúde pública, apontadas por 57% dos entrevistados como as mais confiáveis.
Canais de notícias, informes do Governo e sites de notícias ficaram embolados
com 38%, 37% e 36%, respectivamente.

Já as mídias sociais têm a confiança de apenas 11% do público. E o
WhatsApp teve pífios 7%. Jornais desfrutam, segundo o estudo, da credibilidade
de 25% dos entrevistados. E o rádio, de apenas 12%.

No Reino Unido, devido à força da BBC, canais e sites de notícias
ficaram na frente como fonte de notícias, com 51% e 49%, seguidos por informes
do Governo, refletindo igualmente a prática de coletivas diárias.

Mas em confiança o poder público se destaca, com 47%, bem distante dos
canais de notícias, que vêm em segundo, com 39%. Mesmo diante das críticas
sobre a atuação da administração de Boris Johnson no controle da pandemia, os
britânicos ainda acreditam mais no Governo do que na BBC ou nos jornais,
segundo o estudo.

E a situação do WhatsApp é pior do que no Brasil.  As notícias compartilhadas pela rede social
têm credibilidade de somente 3% na visão dos britânicos.

Fadiga de notícias − Para jornalistas que neste momento tentam adivinhar o que a
audiência quer, ou assessores produzindo sugestões de pauta, aqui vai uma luz.
A pesquisa indagou sobre as informações mais desejadas pelo público. Os
brasileiros apontaram notícias sobre a situação da pandemia no País (49%) e na
própria região (48%), seguindo-se as matérias positivas sobre a Covid-19 (42%).

Mas, atenção! 30% querem mudar de assunto, indicando uma tendência já
apontada em outras pesquisas: a fadiga de notícias a respeito o tema.  Vai ser preciso muita sintonia com a
audiência para continuar contando com a atenção dela, em um contexto em que
informação é vital para o controle da doença.



Fonte: Portal dos Jornalistas

Deixe uma resposta