Conexão Rússia, pra inglês ver

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Vladimir Putin na RT

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Nas semanas que antecederam as eleições gerais britânicas, em 2019, o então primeiro-ministro Boris Johnson foi pressionado por todos os lados para divulgar o Relatório Rússia, elaborado pelo comitê de inteligência do Parlamento, que traria conclusões sobre interferência da administração de Vladmir Putin no país e sobretudo no plebiscito do Brexit. Ele resistiu, foi referendado no cargo com margem folgada e só agora trouxe a público o documento, que além das implicações políticas envolve o jornalismo do país.

Um dos alvos é a emissora RT (Russia Today), que entrou na mira por sua suposta atuação como braço da influência russa em solo britânico. Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista, hábil advogado de tribunal, foi uma das vozes a se levantar contra a rede assim que saiu o relatório. Exige que a estação controlada pelo Estado russo perca a licença de transmissão no Reino Unido.

O caso coloca em pauta o papel de emissoras estatais globais, caso da própria BBC, maior braço do soft power britânico, levando ao mundo a influência cultural do país. Outras nações poderosas também financiam o jornalismo além das fronteiras por meio de redes públicas, como França e Alemanha. Os Estados Unidos têm uma agência governamental para cuidar disso, a USAGM (US Agency for Global Media), que supervisiona servicos como a Voz da América.

Ainda que oferecendo programas de qualidade, todas representam interesses do país de origem. Mas poucas foram tão longe no alinhamento político como a RT − que passou a usar a sigla e não o nome completo talvez para não deixar tão evidente a conexão com a Rússia. Ao percorrer a grade de canais de TV no Reino Unido, um desavisado nem percebe tratar-se de um canal ligado ao país.

Os problemas de imparcialidade da RT não são novos. O próprio órgão de controle de telecomunicações do Reino Unido, o Ofcom, já andava de olho na emissora. Ano passado, multou-a em £ 200 mil por sete violações ao código de transmissão em relação à cobertura do caso de envenenamento de um ex-espião russo em Salisbury, que teria sido praticado por integrantes do serviço secreto do país.

A emissora tentou reverter a punição alegando direito à liberdade de expressão. Mas não teve  sucesso. A pena foi confirmada pelo Supremo Tribunal.

A teia política que envolve a RT com o Reino Unido é extensa. Dois dos programas punidos por quebrar as regras de imparcialidade foram apresentados pelo britânico George Galloway, um ex-parlamentar que se tornou apresentador na emissora. Alex Salmond, ex-líder do Partido Nacional Escocês (SNP) é outro que mantém um programa na RT.

São exemplos das ramificações na sociedade britânica apontadas pelo relatório, que revelou a presença russa em círculos sociais e de negócios, principalmente imobiliários. E também jornalísticos.

Ano passado causou estranheza na imprensa mundial o fato de uma obscura agência de notícias chamada Ruftly ter sido a única a obter imagens do momento em que Julian Assange deixou a embaixada do Equador em Londres, onde estava refugiado havia quase sete anos. A sortuda agência, que estava no lugar certo na hora certa,  pertence à RT, levantando suspeitas de que poderia ter sido favorecida devido a ligações de Assange com Putin.

Dois dos principais jornais britânicos, o Evening Standard e o Independent, pertencem ao empresário e ex-agente da KGB Alexander Lebedev e seu filho Evgeny. Eles compraram o Standard em 2009 e o Independent no ano seguinte, por valores simbólicos.

Johnson e Evgeny Lebedev socializam em festa do Evening Standard (Crédito: David M Benett/Getty Images)

No dia seguinte à vitória nas eleições de 2019, Johnson foi comemorar justamente na casa do magnata, em uma festa regada a caviar, segundo a imprensa britânica. Russo, certamente.

O recesso parlamentar de verão deve dar uma trégua na política britânica por algumas semanas. Mas o impacto do Relatório Rússia foi tão grande que a RT pode esperar dias difíceis pela frente. Parece história de filme de espionagem. E talvez seja mesmo.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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