Com nova emissora nacional, Murdoch aposta no bom e velho rádio

Com nova emissora nacional, Murdoch aposta no bom e velho rádio

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Diversificar para elevar audiência e receita tem sido uma das estratégias adotadas por organizações de mídia, que investem em canais complementares, de olho sobretudo no público jovem conectado à Internet. Mas a novidade que movimentou o jornalismo britânico esta semana é uma aposta no bom e velho rádio, indicando que ele continua forte e saudável.

O lançamento da The Times Radio (em 29/6) é um passo interessante da News Corporation, do magnata Rupert Murdoch, que também edita o tabloide The Sun. Trata-se da primeira emissora criada por um diário nacional no país, acessível de forma convencional, online e por aplicativo. Não tem anúncios, pois optou por captar receita via pacotes de patrocínio.

John Pienaar

A associação com o estilo e conteúdo do impresso começa pelo nome e é reforçada por um time de apresentadores que reúne estrelas do The Times como os populares colunistas Hugo Rifkind, Rachel Sylvester e Matt Chorley, que editava a newsletter diária matinal do jornal. O grupo também buscou reforço externo, com destaque para o ex-subeditor de política da BBC John Pienaar, conhecido pelas aparições diárias na emissora.

A perda de Piennar pode não ser a única dor de cabeça causada à rede pública pela The Times Radio. É cedo para prever se ela vai arranhar a liderança da BBC no segmento radiofônico, que é folgada. Segundo o órgão regulador de telecomunicações (Ofcom), sete em dez dos 43% dos britânicos que ouvem noticiário no rádio optam por canais da BBC, que ocupa os três primeiros lugares do ranking.

Mas pode incomodar principalmente a BBC Radio 4, ao propor aos ouvintes um jornalismo que privilegia análise e conversas em profundidade no lugar debates acalorados e pressão sobre os entrevistados. Há até quem defenda que a iniciativa tenha sido mesmo destinada a provocar a BBC.

O colunista do The Guardian Mark Lawson foi um dos que abordou a teoria de que a The Times Radio seria um lance da campanha de Murdoch contra a rede pública, sob as bençãos da administração de Boris Johnson. Desde as eleições de 2019 o clima entre Governo e BBC não é nada bom, com ameaças ao modelo de financiamento baseado na taxa paga por todas as residências britânicas.

A ideia se fortalece pelo fato de o primeiro-ministro ter prestigiado o lançamento da The Times Radio, concedendo no horário nobre matinal sua primeira entrevista desde que se curou da Covid-19. Em linha com o modelo anunciado, a conversa foi doce e meiga, mesmo quando Johnson usou a tática recorrente de fugir de perguntas incômodas.  Atitude bem diferente da dos apresentadores da BBC.

Rádio firme e forte − Política à parte, ao se observar o comportamento do público e do mercado a aposta no rádio faz sentido. Pesquisas mostram que audiência e receita desse meio seguem estáveis no Reino Unido, oposto do que acontece com os jornais. A Rajar, que audita o setor, informa que 48,9 milhões de adultos ouviam rádio no primeiro trimestre de 2020 e a ele dedicaram em média 20 horas/mês. Isso representa 89% da população, faixa que se mantém com leves oscilações desde 2013.

Diferentemente dos jornais, que ao migrarem para o digital privam o leitor da experiência de folhear as páginas, o rádio tem a vantagem de assegurar a mesma experiência quando transmitido pela Internet. A última pesquisa do OfCom apontou no início de 2019 crescimento de 51% para 56% no acesso online em um ano. Em janeiro passado, o Rajar detectou 67% de ouvintes acessando rádio via internet. De 32% dos britânicos que disseram possuir um assistente pessoal, 18% declararam utilizá-lo para ouvir rádio diariamente.

Confiança é outro ativo importante desse meio, em um país quem tem na memória coletiva discursos radiofônicos históricos de monarcas e líderes como Winston Churchill. A pesquisa Eurobarômetro, da Comissão Europeia, confirmou em maio o rádio como a mídia mais confiável pelo décimo ano consecutivo, alcançando 57%, contra 49% da TV e 46% da imprensa escrita. Nada mal para o vovô do podcast, que pelo visto ainda tem muito fôlego para encarar a concorrência.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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