BBC novamente na linha de tiro

BBC novamente na linha de tiro

Emily Maitlis

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A crise política desencadeada pela viagem de Dominic Cummings, principal assessor do primeiro-ministro britânico Boris Johnson, para visitar os pais em pleno lockdown e pela decisão do Governo de não demiti-lo pode bem ser comparada a terremotos que depois do choque principal continuam emitindo abalos secundários. Entre os atingidos pelos efeitos colaterais do imbróglio está a BBC, envolvida em uma série de controvérsias relacionadas ao episódio.

A emissora pública, já enredada em questionamentos sobre seu modelo de negócio, não precisava de mais confusões em um momento tão complicado de sua história. Mas pelo seu papel central no jornalismo do país e pela relação afetiva que o povo britânico tem com ela, é quase impossível navegar tranquila em casos altamente mobilizadores, sobretudo no momento em que a sociedade tornou-se tão polarizada por causa do Brexit.

Uma das polêmicas envolveu Emily Maitlis, apresentadora do Newsnight. É uma jornalista renomada, premiada pela devastadora entrevista com o príncipe Andrew em 2019, que custou ao nobre o afastamento das atividades públicas. Na semana passada, usou a abertura do programa para um comentário sobre o caso de Cummings, expondo sua opinião contrária ao tratamento dado pelo Governo ao tema.

A avalanche provocada por sua fala colocou em pauta a discussão sobre imparcialidade. Diferentemente de outros países, os principais jornais do Reino Unido são alinhados aos partidos que dominam a política local, o Conservador (atualmente no Governo) e o Trabalhista, de oposição. Mas a BBC, a despeito de ser a principal fonte de notícias para a população, é financiada por uma taxa obrigatória paga por todas as residências do país, esperando-se dela uma postura independente.

Aqui começa a dificuldade. Seria parcialidade criticar o ato mal explicado de um membro relevante do Governo, apontado por especialistas em saúde como desastroso por incentivar o público a não respeitar as medidas de controle do coronavírus? Ou estaria a apresentadora apenas verbalizando o senso comum, já que redes sociais e pesquisas de opinião apontavam condenação veemente à viagem?

Para a direção da BBC, o discurso de Maitlis infringiu o código de conduta da emissora. Embora no dia seguinte ela não tenha apresentado o programa, dando margem a especulações sobre se seria demitida ou se teria sido afastada, retornou ao posto esta semana sem comentários sobre o incidente. Mas o caso continua sendo debatido em reportagens, artigos de opinião e nas redes sociais.

No domingo (31/5), o Sunday Times aprofundou o tema confrontando a opinião de fontes diversas, incluindo alguns ex-diretores da BBC. E levantou um aspecto importante da questão da imparcialidade: a prática de jornalistas serem autorizados e até incentivados a alimentar perfis nas redes sociais.

Nesse caso, a manifestação foi no próprio programa de TV. Mas os principais jornalistas políticos do Reino Unido são ativos no Twitter, dando furos ou emitindo comentários pessoais. Para os que trabalham em veículos privados pode não ser um problema. Mas para os da BBC é uma areia movediça.

Laura Kuenssberg, editora de Política da emissora, já havia sido alvo de ataques no dia em que a denúncia sobre a viagem de Cummings foi revelada. Ela postou a explicação oficial, e imediatamente passou a receber críticas por estar supostamente defendendo o Governo. Nesse caso, a BBC saiu em defesa dela, observando que a jornalista estava registrando um fato.

O que se depreende dessas controvérsias é que imparcialidade no jornalismo não é algo simples de ser delimitado. E para uma emissora com o peso institucional e o modelo de negócio da BBC, financiada por eleitores de todos os partidos, torna-se ainda mais desafiante.

De olho no problema, a emissora contratou − antes do episódio de Maitlis − o professor de jornalismo da Universidade de Cardiff Richard Sambrook, que atuou como diretor da rede por 30 anos, para uma revisão nas práticas de uso de mídias sociais por seus jornalistas. Ele vai ter muito trabalho.

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Fonte: Portal dos Jornalistas

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