Atacados, veículos conquistam importantes vitórias na Justiça

Atacados, veículos conquistam importantes vitórias na Justiça

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Diante de um cenário global calamitoso para os meios de comunicação, até que o jornalismo britânico tem esta semana motivo para comemorar. Aliás, dois motivos. A Justiça do país acaba de dar sentenças favoráveis ao site de tecnologia The Register e a duas organizações de mídia que editam tabloides − News Group e Express − em casos envolvendo pessoas inconformadas com cobertura negativa a respeito delas.

A história do The Register teve como protagonista
a empresa de venda de hardware Aria Technology, sediada em Manchester,
investigada pela autoridade fiscal da Grã-Bretanha por valer-se de um esquema
fraudulento para reduzir o pagamento do imposto sobre valor agregado (VAT).

Quando a condenação da empresa em primeira
instância saiu, em 2018, o The Register obteve uma primeira vitória judicial: o
acesso aos documentos do processo que tramitava na corte especializada em
assuntos fiscais. O resultado foi saudado na época como precedente importante
para casos semelhantes.

Em fevereiro passado veio a condenação definitiva
da Aria, determinando o pagamento dos impostos. Mesmo diante do fato consumado,
o CEO Aria Taheri não se conformou em ver o caso relatado pelo site. Porém, em
vez de só choramingar, ele resolveu se vingar.

Colocou em marcha um esquema bem orquestrado
contra a publicação, composto por posts agressivos no Twitter, artigos e
até compra de mídia no Google para que os ataques aparecessem ao lado de buscas
sobre o caso da empresa.

Taheri pegou pesado. Acusou o The Register de fake
news
e de praticar “jornalismo caça-cliques”. Alertou outros empresários a
não anunciarem no veículo para não terem suas reputações afetadas. E ainda
publicou cartuns depreciativos contra o editor Paul Kunert e contra o
repórter Gareth Corfield.

Diante das evidências e do óbvio fato de que não
se tratava de fake news, visto que houve uma condenação, foi obrigado a
admitir que as acusações eram falsas e altamente difamatórias. Teve que pedir
desculpas públicas e ainda colocar a mão no bolso, pagando custas e indenização
aos jornalistas.

Assédio e racismo, ou liberdade de expressão? − A outra vitória da imprensa envolveu uma família originária da República
de Camarões, que emigrou para a França e posteriormente para o Reino Unido. O
casal, com oito filhos, tentou obter reparação de The Sun, Daily Star e Daily
Express pela cobertura que considerou abusiva a respeito da insatisfação com a
casa oferecida pela Prefeitura da cidade de Milton Keynes, como parte da rede
de proteção social a pessoas sem emprego e renda no país.

A história tem toques originais. Ao receber a
ampla casa de quatro quartos, o casal não gostou e tomou a iniciativa de
acionar um jornal local, posando para fotos para demonstrar a suposta
inadequação do espaço às necessidades da família numerosa. Só esqueceram de uma
coisa: a opinião do próprio jornal e do público em comentários nas redes
sociais poderia ser diferente da deles, como foi.

Julgando-se ridicularizados pelas críticas,
partiram para o processo judicial alegando assédio e racismo, mas perderam. Os
veículos se defenderam com base na tese de liberdade de imprensa, salientando o
direito de opinar sobre o caso.

É difícil prever se o tratamento seria equivalente
não fosse uma família de negros e imigrantes. Por outro lado, em defesa dos
tabloides, registre-se que eles não costumam poupar celebridades ricas e de
origens diversas.

Exemplos recentes são a lamentável história da
apresentadora bem britânica Caroline Flask, que cometeu suicídio há três meses
alegando pressão da imprensa diante do processo que respondia por agressão ao
namorado; e a do jogador de rúgbi galês Gareth Thomas, que teve a condição de
homossexual e portador do vírus HIV revelada diretamente aos seus pais por um
repórter de um desses jornais.

A sentença traz uma interessante dissertação sobre os sempre
difíceis limites entre interesse público, liberdade de expressão e direitos
individuais. Vale a leitura.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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