A imprensa esportiva e o coronavírus (II)

A imprensa esportiva e o coronavírus (II)

Foto: Shutterstock/Reprodução

Por Victor Félix, da equipe de J&Cia

O setor dos impressos foi muito afetado pelo coronavírus. Ao longo dessas semanas de quarentena, foi possível ver renomados títulos como a revista Caras, o jornal Lance e algumas revistas da Editora Globo suspenderem suas versões impressas por causa do contexto pandêmico atual.

Levando em conta os impactos que o coronavírus trouxe ao impresso, Daniel Batista, repórter da editoria de Esportes do Estadão, e Robson Morelli, editor de Esportes, conversaram com J&Cia sobre o cotidiano do jornal.

Robson Morelli

Entre as principais mudanças que o Estadão realizou na sua redação, destaca-se o fato de que todos os profissionais estão trabalhando remotamente, sem exceção. Robson contou que isso altera drasticamente o dia a dia dos jornalistas: “Nós agora estamos nos contatando via ferramentas de meeting, videoconferências, e o processo fica mais lento, mas funciona. Alguns especialistas dizem que talvez essa situação possa vir a se tornar um legado, pois as pessoas se deram conta de que é possível trabalhar remotamente sem perder a qualidade do que é feito”. O editor destacou o papel do setor de Recursos Humanos do Estadão nesta transição para o home office: “Eles nos forneceram todo o material de segurança necessário, desde máscaras, luvas e até trajes de proteção, e também foram muito atenciosos em relação ao fornecimento de notebooks próprios do jornal para trabalhar, com a possibilidade de levar o próprio desktop para casa, como foi o meu caso”.

Daniel Batista

No que se refere ao conteúdo produzido neste período em que as competições estão suspensas, Daniel comentou que é impossível separar assuntos esportivos do contexto atual: “Num primeiro momento, todas as notícias eram relacionadas ao coronavírus, jogadores que foram infectados, competições suspensas, entre outros. Depois, passamos a focar nos impactos da doença nos esportes, ou seja, se as competições voltariam ainda este ano, como isso afetou a preparação dos atletas, os impactos econômicos para os clubes e entidades. Agora, estamos em uma ‘terceira fase’: os esportes vão voltar, mas quando e como? Em quais circunstâncias? Com a presença de torcedores e da imprensa? Como priorizar a saúde dos atletas em esportes de contato físico, como é o futebol? Qual é a opinião de especialistas? Estamos produzindo matérias especiais nesse sentido, com entrevistas de médicos, representantes de clubes, jogadores, para saber se de fato estamos prontos para retornar com os esportes de forma segura e priorizando a saúde de todos”.

Robson disse que o conteúdo se resume basicamente a “muitas entrevistas, especiais, análises sobre o impacto do coronavírus nos esportes, como pensam as entidades como a CBF, os clubes, dívidas, como ficam os programas de sócio-torcedor, contratos trabalhistas, salários, doações, ou seja, tudo o que é pertinente no momento”.

No impresso, o espaço de Esportes está sendo de apenas uma página. Anteriormente, era de até três páginas aos fins de semana e às segundas e quintas-feiras. É inevitável uma queda na audiência do setor de Esportes, algo que ocorreu na imprensa esportiva de todos os veículos noticiosos do País. Robson comentou que, em termos de cliques e visualizações, os índices de Esportes estão em cerca de 30 a 40% dos valores habituais, algo que configura uma situação muito ruim, segundo o editor. A média de assinaturas digitais está sendo mantida, algo em torno de 100.

Daniel comentou que “o Esporte teve queda de audiência, mas isso era esperado, e aos poucos vamos retomando a audiência. A impressão que passa, analisando números da mídia global, é que as pessoas estão começando a se cansar de notícias do coronavírus, esse bombardeio de informações, números, a todo o momento há algo novo sobre isso, não é à toa que, ao mesmo tempo em que a editoria de Esportes do Estadão caiu de audiência, outras áreas como Política, Economia e Saúde cresceram exponencialmente. Então, as pessoas estão querendo ver coisas sobre outros assuntos, um descanso de todo esse acúmulo de informações sobre o coronavírus”.

Sobre essa questão, Robson comentou que o trabalho deles “entra justamente aí, para fornecer conteúdo sobre esportes para as pessoas que estão sobrecarregadas, uma espécie de diversão, relaxamento para os amantes de esportes, fornecendo conteúdo que julgamos relevante atualmente”.

Em relação a cortes e redução de salários, Robson declarou que, até onde ele sabe, “não houve nenhuma demissão na equipe inteira do Estadão”.  Em relação a reduções salariais, o jornal assinou um corte de 25% do salário, conforme determinado pela MP 936, o que “não era nenhuma surpresa para ninguém”, segundo o editor.

Outra mudança radical que ocorreu no Estadão foi o processo de deslocamento de profissionais de outras editorias para o Núcleo Corona, criado especificamente para a cobertura da doença. Uma grande parte da equipe de Esportes foi transferida, e atualmente, toda a produção esportiva passa pelos únicos quatro profissionais restantes na editoria: o próprio Daniel Batista, os repórteres Andreaza Galdeano e Ciro Campos e o estagiário Raul Vitor. Robson agora está auxiliando tanto a editoria de Esportes quanto o Núcleo Corona, dividindo suas atividades profissionais em duas áreas diferentes, porém correlatas.

“Não vou negar, essa situação está sendo muito desafiadora. Eu trabalho há cerca de 17 anos, e este com certeza é um dos maiores desafios da minha carreira”, declarou Daniel. “É difícil falar sobre esportes num período em que as competições estão suspensas, ou seja, quase nada acontece, e quando algo porventura ocorre, o fato está relacionado ao coronavírus”.

Nesse sentido, Robson destacou a versatilidade da equipe de esportes: “Os profissionais são versáteis, somos muito requisitados por outras editorias, acho que o próprio tema de esportes contribui muito para o fortalecimento dessa versatilidade”.


Robson Morelli é formado em Direção Editorial pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Trabalhou nas revistas Quadro Rodas e Placar e nos jornais Diário Popular e Diário de S. Paulo.

Em 1997, cobriu as 500 Milhas de Indianápolis e tornou-se setorista do Palmeiras, função que exerceu até 1999, ano em que cobriu a Copa América, no Paraguai. No ano seguinte, passou a cobrir o dia a dia do Corinthians, o que fez até 2002, quando participou da cobertura da Copa do Mundo de Coreia/Japão. Naquele ano, conquistou o Troféu Ford Aceesp na categoria Melhor Repórter de Jornal.

Em 2003, passou a ser setorista do São Paulo. Em 2007, participou da cobertura dos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro. Em 2008, cobriu as Olimpíadas de Pequim e o Pré-Olímpico de Basquete, em Madrid. Foi subeditor e colunista do Jornal da Tarde até o fechamento do jornal.

Atualmente ocupa o cargo de editor de Esportes do Estadão, onde escreve sobre futebol e outros esportes. É também editor do Portal do Estadão.

Daniel Batista é repórter do Grupo Estado desde 2009. Trabalhou em Jornal da Tarde, rádio Estadão, até chegar ao jornal, onde está atualmente. Antes, passou por Diário de São Paulo e fez freelances em veículos como o site Fanáticos por Futebol, site da Federação Paulista de Futebol (FPF), R7, Revista Oficial do São Paulo, Jornal Fiel (Corinthians), rádio Pirassununga, entre outros.



Fonte: Portal dos Jornalistas

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