Tradição Honrosa

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Celebração de 60 anos da Associação Harmonia de Educação e Cultura relembra história da própria imigração 

Na história da imigração japonesa no Brasil, muitos aspectos chamam a atenção. A adaptação em um país totalmente diferente, a esperança de um futuro melhor e a manutenção das tradições são exemplos. De lá para cá, diversas mudanças circunstanciais aconteceram, deixando claro que os valores morais e éticos do outro lado do mundo perpetuam até hoje. Tanto é assim que há diversos nipo-brasileiros de sucesso na sociedade.

Neste contexto histórico, a educação é um dos ingredientes para o fortalecimento da comunidade nipo-brasileira. Dentro das famílias orientais, o estudo está sempre em primeiro plano, como prioridade. Foi assim – com este pensamento – que os próprios imigrantes deram forma a conceituadas instituições de ensino. Uma das mais tradicionais é a Associação Harmonia de Educação e Cultura que, através do Colégio Harmonia, semeia o conhecimento há um bom tempo. 60 anos, para ser exato. Data esta celebrada no mês de setembro, em uma cerimônia que emocionou não só os atuais alunos, mas aqueles que passaram por lá e, atualmente, reconhecem o legado da instituição.

“Trata-se de um dos símbolos da nossa comunidade, retratando a preocupação dos japoneses aqui no Brasil com a educação dos filhos. Digo que é a entidade mais emblemática, dentro desse ponto de vista”, sintetiza o desembargador Kazuo Watanabe. Também presidente do conselho deliberativo da instituição, o jurista relembra com entusiasmo o período em que permaneceu na “Casa de Estudante”, entre 1954 e 55, no qual “aprendi bastante e me deu subsídios para o exame vestibular”. “Foi uma grande experiência. Esta ênfase na educação reflete até hoje, como, por exemplo, na Universidade de São Paulo, que conta com dezenas de professores de origem japonesa, além das centenas de alunos nikkeis”, analisa.

A história de esforço e dedicação do Harmonia remete a uma reflexão profunda por parte de algumas lideranças, durante a década de 40: qual a melhor maneira de contribuir na formação dos jovens da comunidade, sendo que a maioria migravam do interior para São Paulo? A resposta veio rápida, com a necessidade de se construir um local para abrigar os alunos, aliando ensino de qualidade. Nascia, portanto, a Sociedade Amigo dos Estudantes de São Paulo, que construiu a Casa de Estudante Harmonia.

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“Foi uma grande força-tarefa que se montou para viabilizar a construção. Os diretores adquiriram um terreno e percorreram o interior de São Paulo e cidades do Paraná para angariar fundos. Por todo este esforço, só temos a agradecer e honrar essa tradição”, explica o atual presidente do Harmonia, Tadayosi Wada, que, em discurso emocionado, citou duas palavras que predominam em qualquer ação da instituição: gratidão e reconhecimento. “Por tudo isso, conseguimos crescer a cada ano, incorporando novas salas e oferecendo ensino de qualidade. Esse é o nosso objetivo.”

Tal evolução pode ser vista na prática. São cerca de 380 alunos, distribuídos no ensino fundamental 1 e 2, além do ensino médio. Antes voltado aos estudantes que precisavam de um alojamento, os quartos foram transformados em salas de aula – sem contar nos laboratórios de língua estrangeiras, de física e química, informática e biblioteca. No ginásio e na quadra poliesportiva, modalidades esportivas dividem espaço com a cultura ancestral do Japão, caso do taikô.

O diretor presidente lembra, também, do investimento em ações fora da esfera acadêmica, casos das campanhas de prevenções e o Intercâmbio Harmonia Brasil-Japão de Futebol Infantil (categoria sub-15) com equipes brasileiras e japonesas. “Temos tudo isso, porém, não somos uma instituição de ensino focado em japoneses. Do total de alunos matriculados, 70% não tem ascendência nipônica”, explica Wada, reiterando que a formação não é focada apenas nos estudos, mas de “formar cidadãos”.

Futuro de sucesso – Se o passado mostra todo o histórico de superação, o futuro projeta grandes conquistas para o Harmonia. Investir em estrutura, capacitação dos profissionais e fomentar parcerias de sucesso são premissas que serão colocadas em prática. Em artigo escrito para o livro comemorativo, o cônsul geral do Japão em São Paulo, Noriteru Fukushima, lembrou que o desenvolvimento de um país começa pela priorização no campo educacional.

“O ensino do Colégio incorpora de maneira admirável os princípios da tradição japonesa. Para que o Brasil continue a se desenvolver ainda mais, é fundamental priorizar a educação, o que significa que o papel do Colégio Harmonia é realmente crucial”, destacou Fukushima, em seu texto.

Na ocasião da cerimônia, o diplomata japonês leu, ainda, um texto do vice-primeiro-ministro japonês, Taro Aso, que destacou o fortalecimento das relações entre Brasil e Japão, “baseado na confiança entre os dois países”. “Os esforços de muitos que passaram pelo Harmonia simboliza, hoje, os laços de amizade sólidos entre ambos os países. A comunidade nikkei também mostra força ao contribuir de forma significativa nessa sólida parceria”, destacou Aso em seu texto.

Com tantas palavras de confiança, é natural que os trabalhos sempre se mantenham fieis aos princípios dos primeiros imigrantes. Um legado que, segundo Tadayosi Wada, nunca será esquecido por aqueles que passam pelo Harmonia. “Esperamos poder continuar a contar com a confiança de todos. Aos formados do Ensino Médio do Colégio Harmonia, desejamos muito sucesso e que, ao trilhar os diferentes caminhos de suas vidas, lembrem-se com carinho desta escola que desempenhou tão importante papel em suas formações, mantendo sempre viva a sua imagem, apoiando e participando nos destinos do Colégio”, destaca.